Luíza quis nascer

oxumaré

Luíza quis nascer no dia 02/05, com seus já 16 anos formados. O parto não foi complicado e aconteceu assim, do nada. Na verdade, não existem relatos do nascimento de Luíza (mesmo Luíza tendo mãe, pai e até madrinha), sendo esse ministrado pela pura vontade da menina.

O que será de Luíza, que já nasceu adolescente? Incrivelmente já se rebelou nas entranhas do mundo e, agora, tenta gastar essa energia clownesca fora da terra.

Aliás, como veio da terra, Luíza é meio terrosa: cabelos marrons e enrolados, pele acobreada, lábios marrons e uma sobrancelha desenhada de pássaro. Parece expressar dificuldade ao enxergar, talvez devido ao excesso de solo, por 16 anos, nas pálpebras. Exigiu, então, do pai, óculos grossos e redondos e uma consulta médica.

Assim, mal chorou no âmago da terra e já estava limpa, descorada e pronta para responder:

“O “E” está para a direita ou para esquerda?”

Como já é moça, Luíza nasceu sangrando, sendo leito fértil dotado de cintura fina, ancas largas e pés e mãos calosos. Luíza parece pouco com as meninas da sua idade e, também, não se sente atraída nem por elas, nem pelos rapazes. A serenidade de Luíza aparenta vir de uma maturidade cozida e preparada em camadas profundas, abaixo do fogo ardente de telhas esquentadas por índios do Alto Xingu.

(continua)

Inverninho

Me pego abrindo o coração, desse jeito, para o mundo, num diálogo infinito com o ócio que obriga minha mente a alucinar por novos amores… Daqueles que trariam a mesma sensação da boca queimada, vermelha, quase derretida pelo vento frio e que se torna mole, rasteira e boba com o vinho não tão suave assim. Vinho esse tomado numa conversa longa que

dura,

dura,

dura…

     e que vai,

                               e que vem,

                                          nas nuances do diálogo, sem se importar se é experimental, se segue padrões, se emprega palavras no lugar de olhares, se acaba se demorando no suspense da falta do toque e da adrenalina da espera. Na cúpula de ar que se forma ao redor da fala, que abafa o barulho ao redor e conecta, mesmo que por um instante, a poesia que floresce com gotas de orvalho frio e pétalas quebradiças.

Ah!
Como pode ser bom (também)

o inverno.

Brazil

 

Tá em Princeton?
Tá em Harvard?
Tá no caralho de outro continente?

Agora, sim

Tá certo

Tá bom.

E assim brilha!

Brilha nos States!!

“No Brasil, Paulo Freire é endeusado por alguns, xingado por outros, mas na prática a sua obra é pouco estudada, mesmo em cursos de licenciatura. Ao contrário do que muitos que não o conhecem imaginam, suas ideias não estão presentes na ampla maioria das escolas brasileiras, que ainda adotam métodos autoritários, desconectados da realidade dos alunos e contrários ao que Freire propunha.

Nos Estados Unidos e na Europa, a pedagogia freireana é influente nas faculdades de Educação e em institutos de pesquisa em Harvard, Stanford, Princeton, M.I.T, Yale,Cambridge, para citar algumas instituições entre as melhores do mundo. É fácil verificar isso. Basta buscar no Google “Paulo Freire” site:princeton.edu por exemplo, para observar as centenas de referências ao educador brasileiro na bibliografia de disciplinas, em seminários, relatórios de pesquisa e eventos acadêmicos nas páginas situadas no domínio destas instituições.

Nos Estados Unidos, iniciativas recentes como a Paulo Freire Freedom School, universidade localizada no Arizona, e a Paulo Freire Charter School, em Nova Jersey, indicam a influência da pedagogia freireana em instituições empenhadas em uma educação que inspire os alunos a relacionar os conhecimentos com o mundo e a participar mais ativamente de suas comunidades.”

(http://www.brasilpost.com.br/andre-azevedo-da-fonseca/serie-de-videos-explica-p_b_7684470.html)

 

Descrição do quase-nada

being-single-woman-illustrations-idalia-candelas-4Não existe, de fato, outro som além do burburinho comum da cidade que dorme pouco. Na verdade, acostumar-se com o fundo depressivo alarmado com sirenes de ambulância parecia ser uma técnica apurada e natural de resistência à fuligem invisível que lhe assombrava as narinas toda a manhã. Vivia, de certo modo, plena em seu gingado de ancas largas e cabelos finos.

Passava um tempo considerável só e, por incrível que isso possa parecer hoje, sentia-se bem. Talvez o silêncio constante lhe construía um vácuo no pensamento que era sustentado por reflexões curtas e pouco esperançosas de permanecerem. Desse modo, pensava sempre no nada que era recheado por lampejos racionais, efêmeros e muito pouco interessantes para sobreviverem diante da preguiça.

Assim, não se via como aqueles que “pensam demais”, que “raciocinam” o tempo todo. Procurava se manter, ainda, distante dessa realidade que acreditava ser demasiadamente cansativa e apelativa. Não via mal em permanecer do jeito que se sentia confortável, tendo em vista que o sofrimento era, com força e energia, distanciado do seu cotidiano. Se tinha uma coisa que não curtia na vida era o drama.

Somente nos momentos em que se relacionava com outros, nas suas mais diversas dimensões, permitia-se viver sensações um pouco mais intensas. Ainda assim, possuía certa dificuldade em guiar-se no escuro sem ligar para um tropeção malicioso de seu dedinho em uma quina pontuda e pronta para atacar; logo, ainda tentava se esquivar para a luz de seu pensamento quase-vazio. Prova disso é que, após supostas intensidades amorosas (ou não), pouco sentia de diferença em seu ócio, quando já chegava em casa e mergulha na enorme dimensão de si mesma.

Antes se sentia um pouco culpada por manter-se absorta nesses hábitos introspectivos. Não via-se em novelas enamoradas e muito menos em livros e filmes que mostravam pessoas inquietas e extremamente ansiosas. Logo, se divertia com as obras por não suportar a enorme carga da identificação. Assim, ao longo de alguns anos, já passou a admitir sua essência moderada e, ainda, começou a se orgulhar da pseudo paz que cultivava todos os dias nos tons amenos de sua mente.

Fugia, entretanto, dessa realidade em alguns momentos em que o tédio parecia maior que a sedução da preguiça. Quase sempre se arrependia do imediatismo do fato, mas sentia-se feliz em voltar ao seu estado original, sensação parecida com a volta à saúde depois de uma ressaca alcoólica nervosa de domingo.

Seu jeito irritava muitos ao seu redor, principalmente quando se demonstrava ágil e deslizante diante de contatos corpóreos. Não que não gostasse deles; em alguns momentos, sentia até falta do xamego. Mas logo passava, como tudo em sua vida: seus sentimentos, seus pensamentos, suas ambições, entre tantas outras coisas.

Costumava rir sozinha quando pensava em desejos antigos e sensações intermitentes que não mais acudiam seu espírito mas que, antes, pareciam infinitas constelações que iluminavam seu marasmo interior e se apoderava de uma sensação falsa de sabedoria adquirida em seu pouco tempo de vida.

E, desse modo, conseguia sobreviver com naturalidade, como se seus devaneios de solidão tivessem sido selecionados pela lei do mais forte. Não havia, para ela mesma, maior ventura nesse mundo que seu próprio jeito de viver.

E assim seguia, forte e bruta. E quieta.

Ilustração de Idalia Candelas (http://idaliacandelasilustradora.blogspot.mx/)

A louca da bicicleta

bicicleta

A louca da bicicleta vem assim, com esse cabelo meio embaraçado, achando que encanta com um tom de deboche mas que assusta os caras que vão pra academia. Se não tem um fone de ouvido, se delicia com fórmulas na cabeça ou com uma música besta que aprendeu a escutar e, muitas vezes, não gosta. Mas vai, ofegante e delirante, subindo o morro com a bicicleta que estrala devido às correntes enferrujadas, seja pelo seu próprio suor ou por sua solidão fantasiosa.

Porque, na verdade, não há solidão nenhuma. Pra louca da bicicleta, gostar de ler em uma cidade pequena é motivo de orgulho, uma maturidade imbecil que construiu para colocar a si mesma em um altar imaginário, feito de gás. Aquele mesmo gás de Saturno, meio impossível de se sentir, que quase ninguém dá bola. Mas ela dá, ela louca e estranha em si, cheia de se achar excêntrica, artística, incompreensivelmente iludida pela redoma cult.

Essa guria é meio complexa, sempre meio, que se porta como uma personagem que usa All Star branco mas que, ao mesmo tempo, trai as atitudes que admira. Tem muita certeza de tudo, incomoda os outros com uma risada exageradamente atormentada. Geralmente, cai em clichês, a louca da bicicleta, mesmo que esses não sejam os mais comuns, mas que são, ainda assim, banais e planos, tão existenciais quando um Augusto Cury pintado de Woody Allen.

A louca da bicicleta é, logicamente, nova, novinha. Um bibelô, um diamantezinho minúsculo necessitando de lapidação de algo mais experiente, talvez uma própria caída na vida. Já caiu de bike, sim, formou um queloide intenso no ombro, mas, mesmo assim, ainda não encontrou um queloide no próprio âmago, desses que sua mãe, na sabedoria da vida, já colecionou.

Não há loucura, de fato, na louca da bicicleta.

Só tédio e acesso à internet.

Carta à Rosa

rosa

Querida Rosa Montero,

Primeiramente, peço desculpas quanto à minha prepotência de chamá-la, intimamente, de “querida”. Afinal, uma autora como a senhora (ou seria melhor chamá-la de você?), tão respeitada e conhecida, exige, logicamente, maior respeito, como diria minha mãe. Entretanto, depois de lida, por mim, sua obra “A Louca da Casa” sinto que, entre nós, foi-se tecendo um fio de cumplicidade, página a página e, com ele, um senso meu de que, por ventura do destino, existe uma estranha e fascinante conexão entre nós.

Como você deixa claro, já no início dessa obra, sua aparente deficiência em guardar piamente os fatos do passado na memória, também apresento uma dificuldade extrema nesse aspecto, vendo-me, quase sempre, frustrada em rodas de conversa em que a nostalgia é o sentimento que embala as discussões, ricas em detalhes, em ressalvas, dos quais, infelizmente ou não, nunca me lembro. Não consigo descrever, de fato, meu sentimento de aconchego diante de suas primeiras páginas que narram essa sua característica tangente ao meu mundo e que, por meio dessas palavras escritas em, talvez, algum lugar da Espanha, longe daqui, do meu Brasil, me tiraram de uma pseudosolidão dos eternamente esquecidos.

Seu livro, minha já querida Rosa, reúne tantos aspectos pelos quais sou fascinada, que, sinto lhe dizer, deixei marcas de escritos, asteriscos, observações em muitas páginas do meu exemplar, fato que levaria à repulsa certos bibliófilos, os quais insistem em prezar pela integridade física da costura dos livros e pela limpidez de suas margens. Constatar a ficcionalidade das memórias e da construção literária das narrativas parciais – ainda bem – de nossas vidas trouxe mais arte ao meu cotidiano, muitas vezes aprisionado pelos tons escuros e cinza da rotina, que adquiriu maios liberdade e leveza diante das amarras, quase táteis, da objetividade.

Admiro com grandeza obras como essa em que a beleza da escrita e do livro, em si, não está na complexidade da retórica, mas, sim, na própria constatação da nossa complexidade como humanos, como seres plurais dotados de faces desconhecidas pelos outros e por nós mesmos. Sua elucidação quanto à pureza do homem que se esvai diante do convívio social me pareceu, no momento em que li, um verdadeiro postulado, um conselho útil a mim, uma garota que, na época, beirava os 16 anos e que acabou sendo docilmente orientada por uma escritora dotada de uma capacidade inebriante de dissertar e “ficcionar” ao mesmo tempo. Talvez esse seja o melhor jeito de despertar a reflexão no outro, querida Rosa, e o âmago de seu texto encontra-se justamente aí.

Enfim, como se pôde notar, essa carta tem cunho de, basicamente, agradecimento, não sendo mais que isso. Digo, por fim, obrigada e saliento que esse livro foi uma das maiores aventuras literárias da minha vida.